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Crónicas da Cidade Grande II

Voava ténue o vento junto daqueles que não lhe conheciam o cheiro. No fundo, o cheiro não era dele, bem como não era o ontem, nem o amanhã. Afastava consigo respirações, umas ausentes, umas compassadas e outras, quem sabe, as últimas. Ninguém as veio reclamar. Não lhe era conhecido o rosto, não que o tivesse, mas ninguém o imaginara. Dele só se conhece o que faz, ninguém sabe o que é, nem quando ou onde pára.

Voava quente nas noites de verão em que roubava beijos a uns quantos enamorados e os atiravas às feras das vontades reprimidas. Neles iam juntos as lamurias de quem nunca teve leis ou liberdade. O calor que levava gelava na passagem por um grade fria que o puxava. Sabe-se que, um dia, levou consigo uma voz de entre tantas outras que todos os dias misturava. Nunca nenhuma lhe tinha falado, mas aquela disse-lhe que precisava de ter uma força maior do que aquela que intensamente o puxava. Chamou-lhe peso, mas a triste brisa não pesava.

Voava perdido o vento que, na verdade, não tinha rumo, nem horas para chegar. Não se lhe conheciam compromissos, não tinha o risco de se atrasar. Levava consigo a loucura que recolhia de cada porta de que batia, de cada rua que varria, de cada guarda-chuva que partia, de cada música que espalhava. A loucura era a de todos os dias, fazia as folhas dançarem frenéticas, os rios correrem, as roupas balançarem, os barcos velarem e muitos rumos se cruzarem. Afastavam-se os chapéus dos donos, balançavam as cortinas, batiam as portadas e a loucura só aumentava. E pesava.

Voava pesado o vento das loucuras que recolhia e recolheu. Um dia sentiu que a grade já não o arrefecia. Nesse dia, desapareceu.


-à já tão conhecida progressividade do dia de todos nós, que temos grades, rumos e loucuras. 


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