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Crónicas da Cidade Grande IV

As portas abrem, desces as escadas e lá está ela: inerte, sombria, apática. Voltas, sobes as escadas, as portas fecham e lá está ela: inerte, sombria, apática. Ela sorri, mas não é para mim, nem para qualquer um que lá passe. Aquele sorriso que aprendeu a ser seletivo, passivo e automático vai sempre de encontro à pessoa certa. A luz que a ilumina todo o dia é a mesma que ilumina toda a cidade e ela assiste à sua mudança com o tempo que mais ninguém tem.

Dobras a esquina, sobes a rua e encontras a porta por onde ela entra para subir as escadas e se deitar por alguns minutos. As faces que a acompanham vão mudando, mas a sua companhia é a mesma. Nisto ela volta, desce as escadas e fecha a porta deixando atrás de si o vulto que antes lhe havia tirado um sorriso e regressa às escadas por onde desço todos os dias.
O cigarro já faz parte da sua figura, como o de tantos outros que enchem a cidade, contudo, o dela é um constante compasso de espera que impede o transparecer de qualquer insegurança que possa ter. E ali permanece: inerte, sombria, apática, mas com ar de quem é dono de si. O mesmo ar que veste todos os dias, depois de acordar para a realidade que, embora sendo sua, não é a que veste.

Nunca vais conhecer aquela calçada, aquelas escadas e aquela cidade como ela conhece. Vais ve-la, como eu a vejo, mas ela não vai querer olhar para ti, não menos do que o tempo necessário para que perceba que não procuras o seu sorriso, nem mais do que o tempo preciso até que olhes para ela e notes a sua presença de contornos desenhados nos dias passados por ela alí, que são todos.

-à assimetria entre aqueles que começam o dia ao mesmo tempo,

mas aprenderam a viver a vida de formas diferentes.

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