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25 de Abril: Os Novos Ditadores

Neste dia de liberdade deve manter-se longe do comum dos mortais a ideia de que a ditadura acabou. E não, não me refiro a Coreias do Norte, Venezuelas e afins. Refiro-me às ditaduras do "nosso" ocidente, do nosso dia, da nossa rua e, quem sabe, da nossa casa.
Não obstante do facto de que nem toda a gente se deixa ser ditado, venho trazer aqueles que na minha singela ótica são os novos ditadores:

- Os mini ditadores:
Não é por acaso que estes são os que vêm em primeiro lugar, afinal, hoje em dia, quem dita mais que as crianças?
Não quer comer? Faz birra e não come. Não quer sair do tablet? Nem precisa de fazer birra, os pais nem se opõem, criança sossegada é bem melhor que uma criança que pede para brincar, passear, ler ou outra coisa qualquer que implique tempo. Bateu no irmão, no vizinho, na tia e no professor? Não tem mal, coitada, tem uma vida difícil. Não empresta nada  ninguém? Bem, afinal as coisa são dela ou de quem? Chama nomes? Não a arreliassem. E por aí vai.
Não tem muito tempo que assisti a uma situação que costuma ser a mais típica: a fatídica ida ao restaurante com crianças. Eis que era uma família de quatro, mãe, pai e dois filhos, sendo que o mais novo estaria loucamente a jogar no tablet. Vem o jantar e a mãe, de uma forma normalíssima, pede que desligue a maquina, ao que o filho negou. Nestas situações, os pais não veem outra solução que não exercer o seu papel à bruta e nisto retira-lhe o tablet nas mãos. Oh cabo dos diabos, o rapaz berrou, chorou e disse que não comia. Bem, no meu tempo isto dava direito a "duas lostras", não é que seja apologista de tal, mas era o que era. Hoje, estes humildes pais, cheios de capacidade parental, têm toda uma nova gama de estratégias para lidar com a maior das ditaduras em que vive, as quais se resumem ao que esta mãe fez: devolveu o tablet.

- A rede e as máquinas:
Também não é por acaso que este surge em segundo lugar, uma vez que deriva do primeiro, contudo já ultrapassou a barreira infantil e chegou a, literalmente, todas as faixas etárias.
Cafés, salas de aula, reuniões, jardins, mesas de jantar, beira mar, transportes públicos, transportes pessoais, festas, encontros a dois, trabalho... A internet está em todo o lugar e onde ela está, estão também uns 70% de pessoas de olhos colados ao ecrã.
Não come sem partilhar o que comeu. Não sai sem partilhar onde foi. Não faz sem partilhar o que fez. Não está com alguém sem partilhar quem é. Não vê nada sem partilhar que viu. Não está triste sem partilhar que está triste. O bebé não andou pela primeira vez se não partilharem que o fez. Não vai ao hospital sem partilhar o que foi fazer. Não começa um relacionamento sem partilhar o dia. Não termina um relacionamento sem partilhar que isso aconteceu. Não mexe, não respira e não vive se não partilhar que viveu.
Dizem que a dor é o novo sinal vital, pois bem, eu acho que devia ser o Facebook ou o Instagram.

- A individualidade e o ódio:
Esta ditadura é tão abrangente que não lhe sei atribuir um lugar. O ego é de cada um e assim sendo é de todos, e, ultimamente, este é a ditadura das ditaduras.
O modelo de vida que me parece vigente desde sempre parece-me, também, que se tem vindo a acentuar de forma extrema. Nasço. Vou para a escola, não cultivar o meu conhecimento, mas sim para poder seguir alguma coisa no futuro. Vou para a universidade fazer exatamente o mesmo e nisto passaram vinte e poucos anos. Vou trabalhar, não para poder ter dinheiro para aquilo que bem entender, mas sim para ter uma casa, carro, família e "gravata com nó que me aperte bem o pescoço" (citando Miguel Araújo). Pago os estudos aos filhos. Os filhos saem de casa. Eu gozo a reforma... mentira, eu tento ter dinheiro que chegue para comer, pagar as contas e os medicamentos.
E isto está mal? Cada um saberá. O que acontece é que fazemos este percurso, de mais ou menos 85 anos, em linha reta. Diria mesmo num túnel em linha reta. Não olhamos para o lado, para o outro. O que nos interessa é o nosso sucesso individual porque temos de completar aquelas etapas todas das quais falei, como se, no fim, o desfecho não fosse a morte. E o outro "que se lixe". Não há desculpas, se eu consegui fazer x e x, o outro, invariavelmente, também tem de conseguir e, se não conseguir eu nutro por ele nada mais do que ódio. Não dou a mão, odeio só.
E andamos nesta ditadura do eu sou porque tem de ser assim e se tu não és, és marginal, ou do eu tenho objetivos, se não os tens, paciência. Deixa até de haver trabalho social por ser social, mas sim porque para mim traz regalias, passo a exemplificar: vou fazer voluntariado porque entra para o curriculum, vou dar sangue porque depois não pago isto ou aquilo (o que já não acontece, felizmente) ou até mesmo vou ajudar x e publicar sobre isso para os outros verem e criticar quem não o faz.
Tudo se prende à intransigência da individualidade e já ninguém deve nada a ninguém, ou talvez deva, mas com certeza que isso lhe faz falta para alguma coisa.

Fonte da imagem: https://www.rtp.pt/noticias/depois-de-abril/o-que-mudou-em-40-anost_n728411

E depois de abril? Depois de abril voltamos às ditaduras do "nosso" ocidente, do nosso dia, da nossa rua e, quem sabe, da nossa casa.

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